Sobre o amor

O amor, o que é?

Decerto amor não é abuso, controle, dor, escravidão.
Relacionar amor e sofrimento traz à mente a estranha dicotomia do sadomasoquismo. O sádico, termo inspirado no marquês mais interessante da história, goza em produzir dor. O masoquista goza com a dor. Já o gozo não é simplesmente a sensação física, o prazer corpóreo, mas certo estado de deleite e satisfação da alma, da mente, do inconsciente.

Amor não é sofrimento. Não tem de ser.

Relacionar amor e sofrimento faz lembrar o cristianismo e o romantismo. Para os cristãos, o amor é uma espécie de princípio unificador e mantenedor da ordem divina. Cabe a nós, reles mortais, amar incondicionalmente nossos semelhantes para nos salvarmos do fogo eterno. Amar é estar em acordo com Deus.
E como amar quem nos faz mal? Por que amar quem nos faz sofrer? Como amar quem não merece ser amado?
O amor cristão é insustentável.
Já os românticos exageraram sobre o amor, seu lugar na vida humana e suas conseqüências. A ideia de que o ser humano apenas se efetiva, se completa, quando ama e vivencia o amor é um convite ao sofrimento. Acreditar que a vida sem o amor não é plena, e sua busca é uma exigência para a felicidade, nos coloca como escravos, submissos, dependentes do amor, por mais tóxico que ele seja.
Herdamos, em certo sentido, os modelos do romantismo e do cristianismo. Em ambos o amor, ou a falta dele, é central na existência humana, e em ambos amor e sofrimento se identificam.
É fato que a maioria dos seres humanos irá se apaixonar, pelo menos uma vez na vida. É um fenômeno universal. O amor se efetiva quando estabelecemos um vínculo afetivo, uma ligação, por motivos que prefiro acreditar mágicos, com o ente amado. Se não há vínculo, não há amor.

Por que ficamos tão abobalhados quando amamos?

Como alguns antigos, acredito que o amor seja uma espécie muito particular de patologia. Quando o desejo se identifica com um objeto e nele se fixa, está formada a patologia. Do ponto de vista psicológico, e sendo bem rasteiro, vejo o amor como uma fixação, involuntária e inconsciente, no outro. Como que por encanto ou feitiço, direcionamos nossos afetos, nos vinculamos com o outro, com um outro, exclusivo e específico. Repito, desconheço os motivos lógicos que causam esse vínculo.

Entretanto, e por vezes, caímos em uma armadilha, dessas que o destino nos prega, sem aviso ou sobressalto, de estabelecer vínculos com pessoas abusivas. E nessa armadilha permanecemos por meses, anos, décadas, a vida toda até... E o fazemos por vários motivos: baixa auto-estima, solidão, compaixão, messianismo. E também pelo gozo: em certa medida, o sofrimento nos traz alguma forma de satisfação. Sim, é absurdamente contraditório, mas quem ousa discordar? A dor que deleita, o substrato do sadomasoquismo, é o cerne dos amores tóxicos, abusivos, doentios.

O que muita gente se esquece é que estar, vivenciar, experimentar relacionamentos tóxicos, é uma escolha, uma decisão voluntária de um sujeito, se assim constituído. Não controlamos o amor, mas não precisamos nos submeter a ele. Submeter-se ao outro, voluntariamente, não é amor, é submissão, é servidão, é escravidão voluntária.

Joe Schuster - Nights of horror (1950)


E o que é o amor?

Simplificando, amor é troca, gratidão, é partilha desinteressada, é apoio e reciprocidade. Eis o que penso a respeito.

Entretanto, o amor, conceito central da cultura ocidental, vem sofrendo alterações. Se o cinema e a televisão foram protagonistas no processo de massificação do amor romântico, e os dois mil anos de história do cristianismo cristalizaram a ideia do amor incondicional, as novas tecnologias de socialização, internet, smartphones, redes sociais, insuflaram novas realidades nas dinâmicas amorosas. Cresce o individualismo e narcisismo, e o amor está se transformando em competição, na efetivação de interesses particulares, no gozo efêmero da auto-idolatria e no culto vazio a si mesmo. Está ficando difícil "trocar" desinteressadamente. As relações humanas têm se pautado em abusos, em excessos, no não cumprimento do acordado, no controle e manipulação do outro a seu bel-prazer e gozo. Disso decorre boa parte dos relacionamentos abusivos.

E todas as formas de abuso, vale enumerar algumas, ciúmes desmedido, interesse em se conquistar vantagens, dissimulação, narcisismo extremado, traição, vícios ou compulsões, etc, podem ser por nós evitadas. Dizer não é uma opção, é uma escolha. Somos livres para isso.
"Daqui pra frente tudo vai ser diferente”.

Não vai: as pessoas não mudam, principalmente quando elas não estão interessadas em mudar, ou quando elas estão confortáveis ou se aproveitando da situação.
Muitas vezes é difícil tomar essa decisão. Estabelecer o vínculo amoroso é um processo mágico, encantador. Quebrar o vínculo faz sofrer, empalidece, entristece. A tristeza é tão humana e recorrente quanto o amor. É preciso aprender a conviver com ela.

Em determinadas relações abusivas, hesitamos em quebrar o vínculo. Acreditamos que as pessoas irão mudar, ou que podemos salvá-las e resgatar a magia vivenciada anteriormente. Ou ainda confiamos na crença do amor incondicional do cristianismo, que prega o amor inclusive aos nossos inimigos, ou na máxima romântica, de que "amar é sofrer".

Reitero, amor não é messianismo: nunca salvaremos quem não quer ser salvo. E existem pessoas que não merecem nosso amor. E ainda, amor e sofrimento são coisas distintas.

Será que ela te ama? Ele só ama o vício? Ela só ama a si mesmo.

Não pretendo me prolongar, portanto, concluo:

Vincular-se a quem não se interessa por nós, mas no que nós podemos oferecer, seja em termos de vantagens (materiais ou imateriais), seja em termos de afeto, é absurdo, ridículo, tolo. Amor não se identifica com sofrimento. Se há sofrimento, é porque o amor padece.

É preciso ser forte, acordar e ter coragem de cortar os vínculos com pessoas tóxicas. Por mais difícil que seja e por mais sedutoras que elas sejam, ou por mais sedutor que o conformismo possa parecer, por fim a amores tóxicos é condição para quem deseja a liberdade.

Ser livre, sentir-se livre, ter consciência da liberdade é uma das melhores sensações da vida. A vida é breve, breve demais para desperdiçarmos nosso amor com vampiros sugadores de vitalidade.

Vale refletir e agir.

Aguardo comentários, abraços cordiais.



Dois filmes sobre amores tóxicos:

Ciúme (L`Enfer - Claude Chabrol) https://maniacosporfilme.wordpress.com/2011/12/28/ciume-o-inferno-do-amor-possessivo-inseguranca-paranoia-e-loucura/

Love me! (Liebe mich! Philipp Eichholtz) - Tem no netflix: https://www.netflix.com/Title/80120934











Comentários

  1. "A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. O amor não faz mal ao próximo. De sorte que o cumprimento da lei é o amor". Romanos 13:8-10

    Não é lindo, isso?

    ResponderExcluir

Postar um comentário